Um pequeno relato do que foi o Grupo Universitário de Micologia de Évora (GUME)

Setembro de 2006

Tudo começou com uma conversa na cantina das Alcaçarias em Janeiro de 2000: encontrei-me com a então aluna de Biologia Sandra Ferreira, que já antes eu sabia interessar-se por cogumelos, e desafiei-a a lançar um Núcleo de Micologia no CEBE, como já então os havia de Botânica e Ornitologia, pelo menos, ao qual eu daria todo o meu apoio. Ela aceitou e, desde Abril (quando vieram as primeiras chuvas) até Dezembro (quando se organizou a primeira saída micológica à Serra de São Mamede) foi uma sucessão de jornadas de campo organizadas por ela em nome do CEBE, e sempre com uma adesão surpreendente por parte dos estudantes de Biologia — e houve mais: um minicurso dado, a meu pedido, pela Drª Fátima Pinho-Almeida, do Centro de Micologia, e a participação numa candidatura (posteriormente recusada) ao programa LIFE-Ambiente liderado pela ANSUB (Alcácer do Sal). A dedicação e empenhamento da Sandra durante esse ano não podem ser sobrevalorizadas, e foi com muita pena que constatámos nada daquilo que se fez ter tido qualquer potencial de continuidade. A adesão foi-se como veio, no fundo era motivada por curiosidade (perfeitamente legítima) e nada mais. Pelo menos assim pareceu.

Havia muita coisa a corrigir. A ideia de núcleos de micologia espalhados pelo País fora, em tempos, uma estratégia do Centro de Micologia, mas as dificuldades de resposta por parte do Centro às solicitações inviabilizava uma tal rede, que para funcionar implicava uma contínua consulta com a instituição central. Sabendo o que sei hoje não estou a ver lá muito bem como é que um tal núcleo do CEBE iria aguentar-se, nem como ele podia ser uma resposta à perspectiva da Drª Fátima vir a deixar o Centro de Micologia (por cessação do contrato), afinal de contas o motivo imediato para o desafio que lancei à Sandra. Felizmente a Drª Fátima continuou ligada ao Centro de Micologia, e o caminho que desde então se traçou contou sempre com o seu apoio. Resolvi em 2001 passar a iniciativa para a minha pessoa, como membro do Departamento de Biologia e do (actualmente extinto) Centro de Ecologia Aplicada; isso implicava assumir também as "despesas" de autotreino na identificação de macrofungos, tarefa central para o núcleo em relação à qual eu tinha antes muita relutância em abordar, não por uma questão de falta de gosto mas por entrever a sua complexidade — eu via-me apenas como um mediador de oportunidades para esse autotreino nos alunos — mas era evidente que o meu autodistanciamento nunca poderia resultar, mesmo que a capacidade de resposta por parte do Centro de Micologia fosse a adequada. Outro erro das actividades do ano anterior foi-me apontado pela Drª Fátima, no sentido em que era necessário começar por investir em poucas pessoas, para conseguir efeitos mais duradouros.

Foram tempos de dúvida, estes em que se "incubou" o GUME. Aproveitei para passar muita da informação que tinha reunido (chaves, imagens, etc.) e publicá-la no site do GUME, e escolhi um punhado de pessoas entre as multidões de 2000. Foi assim que comecei a contar com alguma regularidade da parte da Maria da Luz Calado, e do Ricardo Ramos Silva depois, e ainda com a Tânia Camacho (de Biologia e Geologia), acompanhando-me em pequenas excursões nos Outonos de 2001 e 2002, na Mitra, o mais completamente na desportiva que se pode imaginar. Na altura em que o projecto AGRO em Chamusca teve luz verde para arrancar, a Maria e o Ricardo eram valores seguros no trabalho de campo e comprovaram-no nesse projecto de maneira eloquente.

Mas a sorte deu uma nova volta no final de 2002. A Profª Celeste acabava de doutorar-se e recebeu como lembrança, da família, um belo livro sobre cogumelos. Fiquei então a saber que ela tinha tomado parte num curso no Parque de Montesinho, ministrado pela bióloga Sara Meyer Branco, que estagiou no Centro de Micologia em 1999 (salvo erro) como finalista de Biologia da Faculdade de Ciências de Lisboa. É evidente que fiz à minha colega, com longo traquejo em líquenes e muita experiência em ecossistemas de montado, o desafio de participar nas actividades no GUME, e passámos a andar juntos nisto. O ano de 2003 viu fazermos as primeiras identificações de material proveniente de Chamusca, ser aprovada a proposta da disciplina de Biologia dos Fungos Superiores para os mestrados e posgraduações do Departamento, e o começo da divulgação sistemática, nas minhas aulas, das saídas de campo na Mitra. E voltaram a aparecer muitos alunos, não só no campo como à noite, no laboratório. Na sequência disso, ainda em Dezembro de 2003, há a destacar o sucesso que teve a saída ao Castelo do Giraldo, no âmbito do Congresso Nacional (e Ibérico) de Estudantes de Biologia, na qual acompanhei estudantes do Porto, de Lisboa e de Cáceres... (só é pena que os de Évora tivessem preferido guardar-se para uma saída a São Mamede que nesse ano acabou por não acontecer!)

Estas divulgações, na continuação dos passeios pela Mitra desde 2001, pretenderam dar aos alunos uma oportunidade de contacto, gerar neles algum interesse, convidá-los à futura participação. Mesmo que fosse havendo oscilações na adesão dos alunos a esta actividade, era crucial para a vida do GUME. Depois de 2003, as saídas na Mitra só se reataram no Outono de 2004, embora o prolongado "verão de S. Martinho" tenha feito umas negaças, mas em contrapartida passou-se um fim-de-semana muito estimulante na Serra de São Mamede (depois de 4 anos, finalmente!). Nele ficámos a conhecer um aficionado por cogumelos do curso de Educação Física, e entretanto o site tem despertado a curiosidade dalguns biólogos de fora.

Quanto aos trabalhos mais a sério: no início de 2004 estava completada a componente de "prospecção" do projecto em Chamusca, que representou um grande impulso na prática de identificação e também deu umas achegas sobre o que podem ser temas relacionados com a gestão dos povoamentos florestais; a disciplina de mestrado, apesar da fraca adesão dos alunos, lá se realizou no Outono de 2004, embora no processo deixasse de haver colaboração da minha parte nas iniciativas da Profª Celeste; e nessa altura comecei a orientar aquele que foi o primeiro estagiário em Macromicologia da licenciatura de Biologia, o Luís Morgado (Xakazulo). Além de estudar os carrascais da Mitra, usando uma abordagem comparativa semelhante à que se encetou no projecto AGRO em Chamusca, participou numa colaboração entretanto encetada com o Hospital do Espírito Santo, onde se investigaram as ocorrências de intoxicações com cogumelos registadas no Serviço de Urgências. Este estágio permitiu-lhe concluir a licenciatura e sobretudo trouxe-o para um nível de conhecimentos sobre macrofungos que decerto lhe vão permitir integrar-se com sucesso na equipa do Prof. Machiel Noordeloos (Leiden, Holanda), um dos maiores especialistas mundiais em macrofungos, e (assim espero) fazer o seu doutoramento. Um poster do Luís e uma comunicação oral minha, no VII Congresso Luso-Galaico de Macrmicologia, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Outubro de 2005, foram os frutos científicos desta actividade, e que serão publicados nos Anais da Associação Micológica "A Pantorra" no número deste ano (sai em Novembro). Ver resumos.

Os passeios na Mitra não foram reatados, apenas se realizou no início de Dezembro de 2005 uma espectacular visita a dois locais da Península de Setúbal, organizada com o Vasco Fachada, o tal entusiasta do curso de Educação Física, e que foi complementada com uma monumental patuscada à base de Lactarius deliciosus, onde a família do Vasco também participou. Apesar disso, constatavam-se duas coisas: primeiro, que não havia novos alunos de Biologia interessados; segundo, que à volta da Profª Celeste se organizava um novo grupo dedicado aos macrofungos (o Micélio), cuja primeira manifestação deve ter sido a belíssima presença que tiveram na Feira de São João em Junho de 2006. Tendo em conta isso, e a realização de três trabalhos em Micologia por alunos de Biologia (o Nuno Alegria em microfungos nematicidas, no Departamento de Sanidade Animal e Vegetal, a Maria da Luz Calado no Mestrado de Conservação de Recursos Biológicos, e o Rogério Louro no Trabalho de Fim de Curso, estes dois sob a orientação da Profª Celeste), assim como o interesse doutros mais orientados para fitossociologias (caso do Carlos Martins), convenceram-me que a Micologia em Évora tem pernas para andar e o GUME realizara assim o seu principal objectivo. Fica este site para continuar na sua tarefa de presença na Web e depositário de materiais de apoio ao estudo dos cogumelos.

Paulo de Oliveira
Departamento de Biologia da Universidade de Évora